Editora Letras do Subsolo

UMA RESENHA DE DOS CORTIÇOS À LUZ

Antonio Arruda

O que inicialmente pensei que seria uma leitura bastante rápida e simples acabou se tornando a mais emocionante, profunda e realista. É realmente o livro mais empolgante que já li.

Este livro nos dá uma visão muito bem descrita das questões sociais e econômicas durante a era da ditadura militar brasileira e logo após o seu término. Tudo isso é feito através da vida de Paco, um imigrante espanhol que chegou ao Brasil ainda criança, no início dos anos 60, junto com sua família, e passou por poucas e boas — indo da pobreza e do luto pelo irmão que faleceu repentinamente em sua infância até se tornar um dependente químico.

Paco também viveu na época que fez o bairro da Luz ficar conhecido pelo que mais tinha: prostitutas, drogas, moradores de rua e ladrões. Isso é retratado de uma forma que me deixa sem palavras. É absurdamente realista.

Depois de ser despejado de seu cortiço e cortar laços com todos que conhecia, ele decidiu apostar tudo no que mais amava e no que lhe restava: a música. Noite após noite, ele conseguia se manter financeiramente — de forma muito modesta e às vezes precária — fazendo pequenas apresentações em um bar local onde trabalhava durante o dia.

Como as drogas eram de certo modo muito acessíveis naquela época, não demorou muito para que ele começasse a usá-las e acabasse viciando. Pouco tempo depois, passou a andar com mais frequência com as garotas de programa que conheceu por conta do vício e das noitadas, motivadas pela sensação de energia que as substâncias lhe proporcionavam.

À medida que afundava cada vez mais no vício, ele de repente teve um vislumbre de esperança ao reencontrar Marieta, a garota que ele mais admirava durante a infância e adolescência. Eles se reconectaram de uma forma muito sentimental e até se tornaram amantes — algo que motivou Paco a tomar a decisão de largar as drogas de vez e guardar dinheiro para arcar com o casamento com a garota dos seus sonhos. No entanto, ele sabia que levaria anos para alcançar esse objetivo, então decidiu seguir pelo caminho mais fácil: encontrar-se com seu traficante para planejar um assalto que o deixaria rico o mais rápido possível.

Quando o dia do assalto chegou, o livro foi ficando cada vez mais eletrizante, palavra por palavra. Escalando em um ritmo tão veloz, o autor decidiu passar pela vida de todos os envolvidos no crime, resultando em uma demonstração profunda e melancólica de que todos têm suas próprias rotinas e ambições, mas nem todos conseguem conquistá-las, pois morrem no processo. Uma dessas pessoas foi Dona Lourdes — uma senhora idosa que perdeu a vida após ser atingida pelo veículo de fuga que Paco dirigia desesperadamente junto com seu parceiro de crime, Buiú, um brasileiro nativo que vivia na favela tentando vencer na vida e dar melhores condições para sua família. E, num piscar de olhos, os três tiveram o mesmo destino. Todos os três morreram no acidente de carro.

No geral, o livro terminou muito rápido, devo admitir que me deixou com um gostinho de “quero mais”. Fiquei tão reflexivo, especialmente após os comentários que Paco fez sobre a polícia local após o fim da ditadura, dizendo que o comportamento deles não mudou em nada. A brutalidade é a mesma. Isso me lembrou que, não importa o quão perdida uma pessoa esteja — morando na rua ou não —, ela ainda pode ter uma perspectiva profunda sobre as coisas que acontecem ao seu redor.

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