Editora Letras do Subsolo

Brincando de natureza

As crianças costumam tocar-nos em pontos sensíveis, sobretudo quando nos mostramos abertos a percebê-las e com elas aprender. Hoje aprendi com minha priminha Débora, de cinco anos. A sabedoria começou logo cedo, assim que entrou pela porta, pela manhã. Falou-me sobre os bichinhos que picam, que são venenosos. Com empolgação falou das abelhas, aranhas e escorpiões. Vimos alguns vídeos na internet a fim de aumentar nosso conhecimento. Abelhas. Aranhas. Escorpiões. Percebemos que esses últimos não picam pela boca, como a pequenina havia suposto. Graças aos algoritmos, passamos a falar das lagartas e borboletas também. Vimos juntos um processo de metamorfose. Lagarta. Casulo. Borboleta. Lindo!

Saímos, minha priminha e eu, pedalando pelas paisagens de Poções. Eu no pedal da bicicleta esperança e ela sentada na garupa, abraçada a minha cintura. Sem pressa, pedalamos em direção ao açude, sem que nenhum adulto soubesse. Após as paradas e mais paradas para arrumar a almofada que havíamos posto no assento da garupa a fim de aliviar o atrito, chegamos.

Débora viu as águas que nunca havia visto, fez castelo de areia, colheu pequenas flores na vegetação rasteira e conchinhas na beira d’água. Apesar disso, a priminha sentiu medo, medo de entrar nas águas que chamou de mar. O sol brilhando e se escondendo por trás das nuvens, brilhando e se escondendo… e a priminha ensaiando entrar, molhar-se. Disse-lhe que era natural sentir medo, todo humano sente medo. O legal é superá-lo.

Com olhar atento e compenetrado ao movimento da água, prudência e mãozinha dada a minha, a priminha de cinco anos caminhou pela água, molhou-se e subiu na rocha que beirava o seu mar. Após fixar as pernas trêmulas, esticando-as, desatou-se de minha mão. Abriu os braços, movimentando-os levemente. E gritou à outra margem do Oceano: EU SOU UMA BORBOLETA!

Olhos marejaram.

Diário Pedagógico (08_set_23)

Por Bruno Quixote

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