Editora Letras do Subsolo

Felicidade é levar a filha à escola

Acho que foi através do Charles Chaplin que me chegou a máxima, que, mais ou menos, diz sermos os responsáveis por tornar o cenário vivido feliz ou triste; tudo estaria contido na recepção. Adoro os filmes de Carlitos, entretanto, esse pensamento não me fisgou assim que o conheci. Uma ideia meio autoajuda, rasa, pensei. No entanto, corrido alguns anos, a recepção, no presente, desnuda compreensão distinta da de outrora. 

Iaiá e eu vamos à escolinha de segunda à sexta, após a arrumação matinal, pego o tecido sling – carregador de bebê – e aconchego a neném junto a mim. Abraçadinhos, vamos pedalando de bicicleta… 

Há dias em que o sol nascente deixa o céu em cores esplêndidas, vamos desejando “bom dia” ao sol e a todas as crianças de mochila com quem nos deparamos no percurso; noutras manhãs, é a vez do frio, um ventinho a cortar as partes descobertas. De touca e olhos atentos, vamos pedalando a apreciar as margaridas-amarelas às margens do rio e a névoa baixa, rala, a germinar do verde pasto, Iaiá nota vacas ruminando, diz: cavalinho?!, cavalinho?!. O rio pega carona conosco, nos acompanha até a escola; já em manhãs de chuva, como nas de hoje, Iaiá se agarra ao cabo do guarda-chuva, pedalamos com os corpos grudadinhos debaixo do aparador de gotas nascidas das nuvens. Encanta-nos a música da água ao tocar o tecido do objeto que nos mantêm secos. Pedalamos em silêncio, ouvindo música. 

As pedaladas com Iaiá até a escolinha me fazem voltar ao Chaplin… sol, frio, chuva. As pedaladas com Iaiá me fazem, hoje, concordar com Chaplin. Todo tempo é agradável e feliz. A linguagem do afeto modifica qualquer cenário. 

Dia desses, ouvindo um canal de Internet – de um jovem criativo – me deparo com outra máxima: felicidade é levar a filha à escola.

(Diário Pedagógico, 15 jun, 26)

Por Bruno Quixote

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