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Pelo leitor Leonardo Ceni
Introdução
O livro “Histórias Do Córrego”, escrito pelo guarulhense Daniel Neves e publicado pela Editora Letras do Subsolo, reúne 14 contos que representam a realidade vivida por muitas pessoas dentro do que é chamado pelo mesmo de “o submundo da metrópole”. Na obra, contamos com o grande repertório acadêmico e literário do autor, que também já dirigiu, de forma independente, diversos documentários abordando o meio urbano. Essa vivência e proximidade do autor com o objeto da obra permite transmitir com precisão as cicatrizes e contradições da sociedade brasileira moderna, que, curiosamente, é marcada por problemáticas nada modernas: família, religião, desigualdade social e identidade pessoal.

Breve resumo do livro
Em cada história, temos o personagem como principal engrenagem da narrativa que acontece, às vezes, numa ordem natural de acontecimentos e, às vezes, viaja sem limites na mente dos envolvidos. É muito fácil se identificar ou até mesmo ter passado pelos mesmos dilemas deles. Esse é, inclusive, um dos objetivos da obra. Fazendo referência à Literatura Marginal, o autor se apropria da linguagem informal marcante na cultura brasileira para retratar os ambientes e os diálogos entre os personagens. Contudo, referências às obras clássicas, tanto brasileiras quanto estrangeiras, são constantemente usadas nos títulos e entre linhas para embasar as críticas e reflexões trazidas nos contos. A lista de histórias e nomes famosos é grande: Nietzsche, Homero, Graciliano Ramos, “O Navio Negreiro”, de Castro Alves, “O Inferno de Dante” etc
O papel da família na formação de uma pessoa
Curiosamente, no Brasil, temos “a família tradicional brasileira” como sendo uma expressão que serve para indicar ou enquadrar um formato ideal que todo bom lar deveria seguir. Vamos levá-la em consideração aqui. A sua forma mais simples seria composta por um pai, trabalhador e provedor, uma mãe, “dona de casa” e responsável pela maior parte da criação, e o filho… E o filho? O que surge dessa cartilha? Bom. Não temos boas referências disponíveis. A realidade que a gente acaba presenciando no dia a dia e que é retratada no livro, é dura. Tomemos como exemplo três contextos em particular, o de Moisés em “Moisés – A Descoberta Dos Dez Mandamentos Ao Contrário”, o de Osvaldo e Eurídice em “O Divino Pecado” e o da transexual em “O Sexo de Deus”. Nos três casos, a religião é inserida na vida dos protagonistas de forma muito precoce. Parando para pensar, chega até ser estranho pensar em crianças recebendo nomes de personagens famosos da Bíblia, crianças com medo de cometer pecados ou crianças tendo seus comportamentos classificados como demoníacos. Pasmem! É exatamente isso que ocorre nas histórias citadas.
A primeira vítima da tal “família tradicional brasileira” é o nosso querido Moisés. Em resumo, seu pai era alcoólatra, batia na esposa (viciada em crack e ex-prostituta) que tinha metade da sua idade e frequentava bordéis nos quais as moças eram também menores de idade. Era provedor? Sim, por medo de ser cobrado de seus atos pela lei local: o tráfico. Mais tarde, a cobrança viria do próprio filho cheio de ódio no coração. O ódio virou a única companhia desse menino que perderia a mãe posteriormente. Osvaldo e Eurídice tiveram suas vidas marcadas pelos valores rígidos e coercitivos que toda família católica tem. A fé praticada pelos pais de ambos era superficial. Se esqueceram dela e de Deus ao alcançar a tão pedida “glória”. Para eles era ter o próprio escritório de advocacia, ser o gerente da empresa, o funcionário do ano. Em compensação, seus filhos sofreram as consequências de uma infância com pouco perfil de infância. Osvaldo confundiu amar com pecar, teve medo de viver o que sentia, e Eurídice confundiu viver com sentir, não teve medo de amar o pecado.
E eis o conto mais triste, a discriminação sofrida pela transexual da Rua Augusta, que fugiu de casa, não deu espaço para sabermos nem o seu nome. O que há de errado com a personagem? O que é ser errado? O que somos? Essas e outras questões também ficaram sem espaço quando se interpreta mal os ensinamentos sagrados. Nos dias atuais, é totalmente obsoleto idealizar um padrão familiar tradicional e ainda mais nacionalista, incubar crenças e valores de décadas atrás num país historicamente miscigenado e achar que vai ser super efetivo. A contradição escancarada é ter um casamento nada harmonioso e pais que não sabem ser pais. É achar que a solução dos problemas é seguir um estilo de vida religioso que não pratica o amor ao próximo.
A sociedade é o antagonista principal
É interessante ver cada personagem lidando com a falta de oportunidade e o preconceito da sua maneira. A resposta é quase instantânea. Ela pode variar entre o estiloso e o feio mas, mesmo que o final não seja feliz, é bonito de se ver. “Na jaula, enfurecido, provocado, chicotado, o animal reage a qualquer aproximação”. O que esperar de uma pessoa que mora desde cedo na rua, é ignorada diariamente pela maioria, é a primeira a ser acusada de cometer um crime seja lá qual for e não tem alimentação adequada, acesso à moradia, higiene pessoal, educação e carinho? Na maioria das vezes, só enxergamos o marginal que ela se torna ao se rebelar. O produto final. Foi o que aconteceu com José em “O Amor do Farol” quando se deparou com Vera. Durante alguns segundos, o rapaz só foi notado quando concluiu que aquele carro semi-novo dirigido por ela seria sua recompensa por trabalhar durante tanto tempo vendendo balas na rua. Não teve êxito na sua tentativa de roubo, mas, se a história tivesse uma continuação, diria que ele se tornaria um grande profissional do crime e seu destino final seria muito semelhante ao de Moisés: a cadeia. Em contrapartida, Valquíria se sobressaiu com estilo ao protagonizar uma verdadeira “Tragédia Grega na Rua”. Descobriu a poesia, se tornou uma artista de fato ao se pintar de vermelho e cantar em voz alta numa praça pública. Cantou em versos a realidade das cidades, cantou a contradição. “Os rostos são máquinas, Os automóveis são surdos”. Diferente do rapaz, ela, sim, teve êxito ao cometer um verdadeiro crime: Roubar a atenção de quem passava naquele momento. Veja bem, caro leitor, o objetivo aqui não é de forma alguma vitimizar aqueles que perturbam a vida de “cidadãos de bem” iguais a Vera. Hora ou outra, rapazes, como João, devem e vão ser responsabilizados pelos seus atos. Até porque a justiça brasileira funciona super bem na hora de apontar o dedo na cara dos menos favorecidos. O objetivo aqui é questionar a falta de chances que eles tiveram pra sair dessa situação de pobreza. Afinal, eles tiveram escolha? Quer dizer, alguém se deu ao trabalho de apresentar outra alternativa a eles? O meio pelo qual os personagens responderam não importa, até porque, ambos continuaram morando na rua ao final de suas narrativas e as frustrações de ambos se direcionam ao mesmo vilão. A própria sociedade é o vilão. Sua frieza e imparcialidade diante de algumas injustiças, como casos de preconceito racial ou violência contra mulher, distanciam qualquer possibilidade de mudança. O cidadão de bem, mesmo que não saiba, também é culpado. Ou será que no final, a Vera ajuda a tirar o João das ruas e a Valquíria tem seu trabalho reconhecido?
O mito da caverna
“A Pergunta de Si Mesmo” traz uma série de pensamentos que nos ajudam a entender um drama tão atual quão antigo. Em uma conversa com seu aluno curioso, a professora usa a história do “sábio que pouco sabia” para explicar o significado da palavra pergunta. Nessa história, acaba acontecendo um fenômeno muito interessante. Um grupo de profissionais das mais diferentes áreas interrompeu suas atividades para repensar os métodos que estavam utilizando e os seus efeitos. Só que havia um problema, eles pararam de viver suas vidas ao entrarem nesse processo. O excesso de reflexão não compensou. Por outro lado, em “Estrofe da Rua” presenciamos exatamente o contrário. O caminhoneiro conta a sua vida antes e depois de ter parado nas calçadas. “Segui o papel que me foi dado, trabalhei, paguei as contas, cumpri as regras à risca”, ele disse, “mas havia sempre um incômodo, uma tristeza que pairava no meu peito”. O intrigante é que, além desse, há outros três contos no livro abordando a mesma temática e todos eles são idênticos no que se refere à experiência dos personagens. Tal experiência se assemelha estranhamente ao famoso “Mito da Caverna” de Platão no qual temos pessoas vivendo dentro de uma caverna e desconhecem qualquer tipo de informação que não seja a luz do fogo e os poucos objetos refletidos por ela. Nos últimos anos, a procura por tratamentos para ansiedade e depressão nos mais diversos níveis e idades é um indicativo de que as pessoas estão se perdendo. Quando elas saem da caverna, a força da luz é tamanha que acaba por derrubá-las no chão. Quando descobrem que não são felizes, que não sabem o que são ou que não sabem do que verdadeiramente gostam de fazer, já é tarde demais. É um baita desafio manter o equilíbrio entre as diferentes partes da nossa vida (pessoal, profissional, familiar, espiritual etc) atualmente. Porém, não vale a pena abdicar de nenhuma. É bem mais grave do que parece. As pessoas estão perdendo a capacidade de refletir, de pensar de maneira autônoma e consequentemente não conseguem se desviar das armadilhas do sistema. “Não tem mais filosofia na escola”, disse o rapper Froid em uma participação no projeto Poetas no Topo. O sistema não quer que pensemos, não quer que nos tornamos seres inteligentes como deveríamos ser, e a consequência é o adoecimento da mente humana. A ignorância pode ser a cura se for controlada. Não sabemos e nem podemos saber de tudo. No entanto, num mundo onde a cobrança vem em dobro para aqueles que não sabem as regras do jogo, a ignorância assume o papel de doença.
Conclusão
A leitura de “Histórias do Córrego” traz consigo diferentes pontos de vista, reflexões, dilemas e críticas. O livro é capaz de pintar a cidade sob diferentes ângulos. O conhecimento que ele transmite vai além do que se conta, porque faz referências aos clássicos sem deixar de produzir sua própria riqueza poética. É como se esse retrato estivesse sendo pintado parte por parte, durante décadas, passando por diferentes mãos. Quem está com o pincel agora é Daniel Neves. Sua contribuição é fenomenal e, com certeza, conquistará o merecido reconhecimento pelos privilegiados que ainda estão por descobri-lo.
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Leonardo Ceni, 21 anos, Barbeiro Independente, Voluntário na Casas André Luiz e estudante de “Gestão Empresarial” na Fatec Guarulhos.