Editora Letras do Subsolo

A LITERATURA DA PERIFERIA: NÓIS POR NÓIS

“Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.” 

(Carolina Maria de Jesus)

Por Daniel Neves, autor de “O Céu da Noite é o Rio”, “Ilusão do Parafuso” e “Histórias do Córrego”, entre outros.

Favela do Canindé, zona norte de São Paulo, anos 50, uma senhora negra e catadora de papelão recolhe do lixo alguns cadernos onde escreve depoimentos acerca do seu dia – dia na comunidade. Esses escritos causavam admiração e até controversas de pessoas que eram retratadas ali. Nascida em 1914, mineira da cidade de Sacramento, Carolina Maria de Jesus veio para a imensa São Paulo tentar ganhar a vida após diversos traumas na sua família. Como milhões que viajaram de várias partes desse país e ergueram as “periferias urbanas”, tanto na capital como em cidades ao redor. Sem as mínimas condições de existência e afastada cada vez mais das regiões centrais, essa gente vai ter de se virar para construir suas moradias, ruas, vielas, eletricidade, um bairro inteiro. Carolina vivenciou bem o começo da urbanização frenética ocorrida no século XX. Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, seus velhos cadernos foram editados e publicados no livro “Quarto de Despejo”, uma das maiores obras da nossa literatura e que serve de base para o que se chama hoje de literatura marginal.

A epígrafe citada acima é um trecho desta obra e nos apresenta uma reflexão sobre seu tipo de escrita, qual seja, a narrativa das desigualdades do seu povo, de si mesma, da batalha que é sobreviver na favela. Isso é essencial, pois rompe com o elitismo latente em nossa tradição literária. Afinal, o pobre é sempre narrado, nunca o narrador, objeto e não sujeito.

Só recentemente autores mais populares estão sendo mencionados pela historiografia e estudados na Academia. Em época semelhante à de Carolina, por exemplo, viveu o poeta “Solano Trindade”, que também abordou na sua poesia o cotidiano dos oprimidos.

Para além do que falam os livros didáticos, essas são referências que já indicam a formação dos atuais escritores marginais. A questão aqui não é negar os nomes tradicionais da nossa literatura, não é restringir, afinal estes são também nossa inspiração. Pelo contrário, a ideia é nos abrirmos para novos autores, ampliar as narrativas. Os meus livros, por exemplo, também se referenciam em tradicionais movimentos literários: o Barroco, o Arcadismo, o Romantismo, o Modernismo.

Literatura Marginal! O termo foi cunhado por Ferréz, escritor do bairro Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e autor do livro “Capão Pecado”, de 1999, um retrato da vida na periferia em meio a uma trama de amor entre dois personagens que são fictícios, mas baseados em pessoas reais que convivem da “ponte pra cá”. Surge ali uma literatura que tenta dialogar com a quebrada. Anos antes, em 1996, Paulo Lins publicou no Rio de Janeiro “Cidade de Deus”, obra que posteriormente virou filme e que narra a criação do bairro Cidade de Deus. Segundo Ferréz, a literatura marginal vem no sentido de nomear nosso modo de escrita, o universo periférico da palavra. O que nós somos? Os críticos não sabiam dizer.

Como habitantes da periferia urbana do século XXI, ao observarmos a história da literatura, notamos que não estamos na posição de “leitores da ausência”, percebemos a presença da nossa classe nos livros. Todavia, majoritariamente, quem escreve sobre nós são intelectuais da classe média ou da elite. São, sim, escritores e escritoras que retratam de forma profunda as raízes do nosso povo, não se trata, portanto, de um “cancelamento” ou deslegitimação dos grandes expoentes da nossa literatura, mas imagine o Pedro Bala escrevendo “Capitães de Areia”, imagine Fabiano escrevendo “Vidas Secas”, imagine Macabéa escrevendo “A hora da estrela”! Aqueles que são objeto poderiam também ser sujeitos. Não quer dizer, necessariamente, que o sertanejo que escreve sobre si mesmo o faz melhor que o intelectual da cidade, significa apenas a democratização da literatura, a multiplicação de vozes.

Durante o começo do Século XXI, uma intensa cena literária eclodiu nas periferias do Brasil. Movida principalmente pelos ditos “Saraus Culturais”, uma infinidade de poetas e poetisas estão publicando seus livros de forma autônoma ou não, mas criando seu próprio sistema de distribuição. Em 2007, o poeta Sérgio Vaz, organizador do Sarau da COOPERIFA (um dos maiores encontros artísticos da capital que fica no extremo sul de SP), ajudou a organizar a “Semana de Arte Moderna da Periferia”. Segundo ele, estamos criando nossa Nouvelle Vague, nosso Modernismo. Nos saraus a presença da poesia é predominante, mas podemos observar novos escritores desenvolvendo a prosa, nomes como “Sacolinha” e “Marcelino Freire”.

Essa literatura fala do gueto. Realista, tem forte teor de crítica social, bebe nas raízes populares dos bairros onde é escrita, as diversas matizes étnicas presentes nos guetos, a cultura popular.

Contudo, não é puritana, diz “truta”, mas lê Dostoiévski. É o que Sérgio Vaz chama de “Antropofagia Periférica”. Assim como Oswald Andrade, comemos os grandes clássicos: Carlos Drummond, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, devoramos a literatura oficial e retiramos dela aquilo que nos é proveitoso, e não falamos apenas de questões sociais, mas também existenciais.

Nesse sentido, a Editora Letras do Subsolo constrói sua trajetória. Nasce em meio ao movimento de literatura marginal, com livros escritos na cidade de Guarulhos e que propõem um novo protagonismo na história. O Coletivo Editora Letras do Subsolo surgiu a partir do encontro de escritores periféricos que não tinham condições de publicar e se viam sem espaço no concorrido e elitista mercado editorial. Seguindo a ideia de uma quebrada que se auto-organiza, em 2017, lutando contra todas as adversidades possíveis, o grupo começa suas publicações de maneira independente, promovendo também eventos de lançamento como grandes encontros de artistas em torno da literatura. Até agora, foram 11 livros publicados, todos registrados com ISBN, entre poesias, romances e livros de contos. Existe uma estética que se posiciona no ambiente em que nasce, qual seja, os bairros de Guarulhos, todavia, mostrando como a periferia é diversa, os livros variam por múltiplas estéticas, expressando uma potente e diversa subjetividade. Contrariando o contexto da literatura no Brasil, o Coletivo tem quase sua totalidade de distribuição construída em bairros periféricos, são os habitantes das quebradas que leem nossos livros, que se identificam com o que está escrito. A identificação tem a ver com a proximidade de nossa produção popular, porque falamos de questões humanas e exercitamos a liberdade da criação. No subsolo da cidade, emerge um grupo de escritores que constroem uma literatura popular.

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